segunda-feira, 17 de abril de 2006

Liberdade


Porto Pim - Faial
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unanimidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Mulher de Porto Pim


Foto by C.King

Deixa-me olhar-te
Na água do fim de tarde
E imaginar o perfil das tuas linhas
Ocultas no mar.
Deixa a fantasia bailar
Nos olhos de quem te vê assim
Tão bela.
Quando saíres
Dá os teus cabelos ao sol poente
Que os fará mais ouro,
Vem pousar o teu encanto
No horizonte da minha toalha
Para eu prender o prazer desses olhos
E o sabor de tornar este sonho
Tão real quanto parece.
Vem mergulhar na minha alma ansiosa
Num mar de águas felizes
E deixa-te ficar a perfumar os meus sonhos.
Traça nos lábios rubros
Um beijo meigo
Que diga tudo o que as palavras não conseguem
E que sempre fique guardado
Na nossa lembrança.

(Julho 1994) dedicado a A.L.R.

Navio


Só deixei no cais a multidão,
A terra dos mortais,
A confusão,
Navego sem farol, sem agonia... distante;
E vou nesta corrente,
Na maré,
No securo da menor consolação,
Acordo a meio do mar que me arrepia,
E foge...
A minha paixão é uma loucura.
Ando...
Numa viagem perdida,
O navio anda à deriva,
Sózinho.
Não é grande o mal, bem pouco dura;
E quando...
Afundar a minha vida,
Se calhar sou prometido... do mundo.

Pedro Ayres Magalhães

domingo, 16 de abril de 2006

Ilhas de Bruma


Terceira

Primavera


…íamos quase em Abril, os dias corriam já ensolarados e no ar sentiam-se já os aromas da nova estação. Aquele miúdo porém andava inquieto, sobressaltado…quase desesperado.
Correu quintal acima galgando pedras e sebes, numa direcção que só ele sabia e percorria, todos os dias das últimas semanas.
Depois parou, afastou uns ramos, olhou, procurou mas nada. Desanimado já ia regressar, quando de repente…ali estava
Bem escondida entre a folhagem de um arbusto, como se quisesse fugir à cobiça dos homens. Era perfeita. Grande, bela, pura, sem mácula.
O miúdo contemplava estarrecido a primeira flor daquela roseira secreta que, todos os anos floria só para ele.
Agora sim, a Primavera tinha chegado!

Força 7

Em névoa me tornei

Foto by Zacarias da Mata

Num banco de névoas calmas quero ficar enterrado
Num casebre de bambú na minha esteira deitado
A fumar um narguilé até que passe a monção
Enquanto a chuva derrama a sua triste canção
Sei que tenho de partir logo que suba a maré
Mas até ela subir volto a encher o narguilé
Meu capitão já é hora de partir e levantar ferro
Não me quero ir embora diga que foi ao meu enterro
Deixem-me ficar deitado a ouvir a chuva a cair
Que ainda estou acordado só tenho a alma a dormir
Como a folha de bambú a deslizar na corrente
Apenas presa ao mundo por um fio de água morrente
Nos arrozais morre a chuva noutra água há-de nascer
Abatam-me ao efectivo também eu me vou sem morrer
Para quê ter de partir logo que passe a monção
Se encontrei toda a fortuna no lume deste morrão
Ópio bendito ópio minhas feridas mitiguei
Meu bálsamo para a dor de ser
Em ti me embalsamei
Ópio maldito ópio foi para isto que cheguei
Uma pausa no caminho
Numa névoa me tornei

"Logo que passe a monção" - Carlos Tê & Rui Veloso

Terras de Lava


Nascer-do-Sol, 200 milhas a Oeste das Flores

Se...


Quando ela passou por mim
indiferente e distraída,
surpreendi-me a pensar sem querer,
de repente na minha vida ...
Se eu a seguisse, ela que nunca me viu

e passou distraída
como se eu nem a visse
Se eu a seguisse
pela rua no meio a tanta gente,
talvez se transformasse toda a minha vida
e ao encontro dela
a minha estrada tomasse um rumo diferente...

Araújo Jorge

Lisboa ComVida

domingo, 9 de abril de 2006

Desejo-te


Foto by Jakub

Desejo-te...
Desejo sentir o teu rosto no meu
A tua pele colada á minha,
Desejo...
Desejo abraçar-te e não me sentir perdido
Perdido na solidão que me consome,
Achar-me um dia.
Anseio pelo teu toque
Quente e suave...
Cheirar...
Cheirar o teu aroma,
Fresco e calmante...
Lembrar-me...
Lembrar-me de um dia especial
Que me reconforte um dia.
Anseio por ti
É inevitável...
Inevitável deixar de me encontrar,
Num ser que tem tanto para dar!
És tu...amor perdido,
Que tento há tanto tempo encontrar!

Woman in Black



Foto by Sasha

Oceano


Assim
Que o dia amanheceu
Lá no mar alto da paixão
Dava pra ver o tempo ruir
Cadê você?
Que solidão!
Esquecera de mim
Enfim

De tudo que há na terra
Não há nada em lugar nenhum
Que vá crescer sem voce chegar
Longe de ti tudo parou
Ninguém sabe o que eu sofri
Amar é um deserto

E seus temores
Vida que vai na sela
Dessas dores
Não sabe voltar
Me dá teu calor
Vem me fazer feliz

Porque eu te amo
Você deságua em mim
E eu oceano
Esqueço que amar
É quase uma dor
Só sei
Viver
Se for
Por você

Djavan

Terras de Lava


Caldeira - Faial
Foto by Anticiklone

Recordação


Porto Pim - Faial

Sentei-me
apoiei meus braços
e olhei em frente
vi a cor doirada do sol poente
gaivotas brancas
tristes
levantam vôo
poisam sobre as águas
falam-me de ti
em soluços de água
rebentando em mim
e a imensidão da areia
como a minha ideia
não tem cor
nem fim!...

Maria Beatriz dos Santos Ferreira

Se tu soubesses


Varadouro - Faial

Se tu soubesses
Que em todos os portos do mundo
Há uma mão desconhecida
A acenar quando se parte para o mar.
Se tu soubesses
Que o mar não tem fronteiras nem distâncias
É sempre mar.
Se tu soubesses
Como é a noite nas àguas
Onde os barcos são berços
E os marinheiros meninos a sonhar.
Se tu soubesses
Que em todos os portos do mundo
Há um sorriso para quem chega
Se tu soubesses…
Vinhas comigo.
Vinhas comigo pró mar,
Embora as nuvens no céu
E os ventos de todos os quadrantes
Dissessem ao mundo
Que iria haver o maior temporal de todos

sábado, 8 de abril de 2006

Ilhas de Bruma


Foto by Jorge Coimbra

Read My Eyes


Foto by Helena Caldeira

domingo, 2 de abril de 2006

Woman in Black


Foto by FMK photo

Procuro-te


Foto by Oleg Seleznev

Procura por mim
Quando for já logo à noite na praia
Com o sol a derreter-se enfim
Procura por mim
Com o vento por saia
E em lugar de suor o sargaço.
Eu estarei quieto e assim sozinho
Cheio das dúvidas do universo
À tua espera
A desenhar o caminho
Para te escrever em verso
No meu regaço.

As Cores do Sol


Pico e Faial vistos de S.Jorge
Foto By Rui Vieira

Ao cair da tarde
Penso sempre mais
E a luz que me invade
São as cores naturais
Cada figuraque passa por mim
nem me perturba
e eu fico assim
Longe me leva este silêncio
e o sentir que se altera
são as cores do sol
E fico encantado
e sinto-me a arder
quando o dia se apaga
fica tanto por ver

Frescura Insular


S. Miguel
Foto by TG Dusty

Longe das aldeias, longe das casas
Ouvimos cantar todas as fontes
E na solidão dos velhos montes
Beijamos as águas dos ribeiros

Francisco Ribeiro

Força 7

Verde mais verde não há

Lagoa das Sete Cidades Foto by Vagabond

A Praia do Mar


Foto by Adilson Falstz

Corre a menina à beira do mar
corre, corre, pela praia fora
que belo dia que está, não está?
E o primeiro a chegar não perde
Andam as ondas a rebentar
e o relógio a marcar horas
a sombra é quente, e quase não há
e o sol a brilhar já ferve
Corre a menina à beira do mar
corre enquanto a gaivota voa
vem o menino para a apanhar
e a menina sentindo foge
Foge a menina da beira mar
foge logo quando a maré sobe
Andam a brincar
na praia do mar
as ondas do mar
E é tão bonita a onda que vem
como a outra que vejo ao fundo
a espuma branca que cada tem
é a vida de todo o mundo.

Pedro Ayres de Magalhães

sexta-feira, 31 de março de 2006

Espera


Foto by Poroshkov

Dei-te a solidão do dia inteiro.
Na praia deserta, brincando com a areia
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto
Longamente esperei que o teu vulto
Rompesse o nevoeiro.


Sophia de Mello Breyner

quinta-feira, 30 de março de 2006

Terras de Lava

terça-feira, 28 de março de 2006

Ilhas de Bruma

O Tejo



Madrugada,
Descobre-me o rio
que atravesso tantopara nada;
E este encanto,
prende por um fio,
a testemunha do que eu sei dizer.
E a cidade,
chamam-lhe Lisboa
mas é só um rio
que é verdade,
só um rio,
é a casa de água,
casa da cidade em que vim nascer.
Tejo, meu doce Tejo, corres assim;
corres há milénios sem te arrepender,
és a casa de água onde há poucos anos eu escolhi nascer.

Madredeus

Alvorada



Além
Cada alvorada
Eu sei
Que tudo traz
Talvez
Não seja tarde
Para quem
Queira cantar
Já não pergunto nada
Já não, não peço mais
Não tenhoPressa de nada
Nem de dizer adeus

Pedro Ayres Magalhães

Woman in Black



Foto by Luís Mateus

Estrela do Mar


Foto by julka Piter

Numa noite em que o céu tinha um brilho mais forte
E em que o sono parecia disposto a não vir
Fui estender-me na praia sozinho ao relento
E ali longe do tempo acabei por dormir
Acordei com o toque suave de um beijo
E uma cara sardenta encheu-me o olhar
Ainda meio a sonhar perguntei-lhe quem era
Ela riu-se e disse baixinho: estrela do mar
Sou a estrela do mar
Só ele obedeço, só ele me conhece
Só ele sabe quem sou no principio e no fim
Só a ele sou fiel e é ele quem me protege
Quando alguém quer à força
Ser dono de mim
Não se era maior o desejo ou o espanto
Mas sei que por instantes deixei de pensar
Uma chama invisível incendiou-me o peito
Qualquer coisa impossível fez-me acreditar
Em silêncio trocámos segredos e abraços
Inscrevemos no espaço um novo alfabeto
Já passaram mil anos sobre o nosso encontro
Mas mil anos são poucos ou nada para a estrela do mar


Jorge Palma

Companheiros



Foto by Mikail Petrov

Tabernas


As tabernas do mundo têm uma luminosidade de cinza que deixa a cara dos marinheiros numa semi-obscuridade, enigmática, sem idade.
Não consigo adivinhar nada nos seus olhares turvos pelo vinho.. Nem donde chegaram nem que estrela os guiará para longe daqui. Ignoro se estão a embriagar-se, a seduzir ou a preparar alguma vingança de morte.
O ruído do porto vem definhar aqui dentro, nesta obscuridade saturada de sal e de vinho. O calor amolece os corpos. Os gestos suspendem-se e desfazem-se. Alguém, ruidosamente, bebe um trago de vinho e diz:
Este mar não é um mar como os outros, é um destino que se fecha sobre si próprio. Chegamos sempre aos lugares de partida…ou, pelo menos, assim acreditamos
Al Berto

domingo, 26 de março de 2006

A Dois


Foto by Micael Campos

Momentos únicos
Tempo escasso
Pensamentos vazios
Lua cheia
Impulsos a mil
Noite curta
Estrelas perfeitas
Clima ideal
Olhos fechados
Boca aberta
Ações singulares
Sol baixo
Mãos atadas
Som sussurrado
Palavras mínimas
Corpo trêmulo
Nós
Tu, eu...

Gosto de acordar com alguém...

Casa Branca

Foto by Luqui

Casa Branca em frente ao Mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em quem dorme
O milagre das coisas que eram minhas

Sophia de Mello Breyner

Soneto da praia


Amanhã, renascidas as fontes
olhando para o grande sol poente
verdejantes, ao norte, montes
águas límpidas em sentido nascente
Ontem, areia branca e macia
céu azul sem nuvens quaisquer
sem limites, uma selva se instancia
surge a destruição que alguém quer
Hoje, momentos alegres presentes
a aparência pouco importa
amigos (se foram) ausentes
Minha alma busca resposta
pergunta infindável e morta
Vida vazia, enfim, se mostra.

Wesley Barbosa

Terras de Lava


Foto by Nana Sousa Dias

O Berço


Foto by Ricardo
Oh terra açoriana,
Mãe doce, mãos de espuma
E carícias de sal,
Ninguém te pode amar como eu te amo,
Que só amor de filho é filial...
Chamem-te muito embora Portugal...
Eu que nasci de ti
E te conheço
Sei muito bem
Qual a distância do meu berço
Ao pátrio domicílio
Original.

Autor desconhecido

Força 7

Read My Eyes


Foto by Alexander Putev

História de Verão


Foto by Lavreshkin Ilia

Uma abelha, dessas que dizem ser italianas, entrou pela janela, obstinou-se em escolher-me, pousa-me no ombro, descansa de seus trabalhos.
Lisonjeado com aquela preferência, comecei a amá-la devagar, retendo a respiração, com receio de que não tardasse a dar pelo seu engano, que cedo viesse a descobrir que não era eu a haste de onde se avistavam as dunas.
Mas o seu olhar tranquilizava, era calma ondulação do trigo.
Agora só uma interrogação perturba a minha alegria: o que farei com o seu mel?
Eugénio de Andrade

sexta-feira, 24 de março de 2006

Pai e Filho

terça-feira, 21 de março de 2006

Lisboa ComVida


As vielas de néon
As guitarras já sem som
Vão mantendo viva a tradição da fome
Que a memória deturpa e o orgulho consome
Entre o orgasmo e a gruta ainda fria
O abandonado da carne vazia
Cada um no seu canto entoa
A canção de lisboa

Jorge Palma

segunda-feira, 20 de março de 2006

Woman in Black


Foto by Roman Bambura

Marinheiro


Foto by Rui Carvalho

Sem especial paixão por terra firme
ele vive rasgando o mar,
sugando pensativamente o seu cachimbo.
Vive no meio do azul a sonhar,
contas já há muito as esqueceu,
as letras já nem se lembra de as estudar
mas de amor,
ah…de amor ele sabe falar.
Fala para si mas sabe o que diz.
Passa toda a sua vida a pensar
e as suas raras palavras,
de sábia razão e simplicidade,
nunca param de ecoar
pois no fundo,
no fundo de todo o seu pensar
pensamento é sempre o mesmo:
sou marinheiro e amo o mar


Joana T.C.

domingo, 19 de março de 2006

Pecado Perfeito

Se um dia um anjo fizer
A seta bater-te no peito
Se um dia o diabo quiser
Faremos o crime perfeito
Donna Maria

Apetece...

Foto by Jorge Fdez

Noite de Chuva



Chuva de prata que cai sem parar
quase me mata de tanto esperar
um beijo molhado de luz cela o nosso amor
Basta um pouquinho de mel para adoçar
Deixa cair o seu véu sobre nós
A lua bonita no céu molha o nosso amor