Velho preto que caminhas na berma da estradaOs anos pesam mais que o caminho.O teu passo é incerto e o teu rumo perdidoNão há futuro, só passadoE nem isso te incomoda...Nada te envergonha...A tua bengala é um pau,Torto e arquejado,Retorcido e decrépito como a tua aparência...Os carros passam por ti como o tempo,Indiferentes,Frios,Trocistas,Desdenhando em sorrisos daquilo em que te tornaste...Aquilo que és...Encetas um dialogo com ti mesmo;Barafustas e protestas,Esbracejas agitando tua bengala no ar;Nada no mundo é teuNem mesmo o teu mundo...Velho preto que caminhas na beira da estradaContinuas errante,cambaleante por entre o transito,Divagas...sem que mais ninguém repare,sem que mais ninguém queira reparar Até que alinha do horizonte te consuma e sumaAdeus velho preto...João Natal
Foto by Portoguese Eyes
Kiama
Dei-te a solidão do dia inteiro.
Na praia deserta, brincando com a areia
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto
Longamente esperei que o teu vultoRompesse o nevoeiro Sophia de Mello Breyner Andresen
A ilha será sempre a primeira nau do olhar.
Às chuvas de Dezembro seguir-se-á o sussurro brando
das folhas de Outono. A terra dirá em teu lugar
o corpo retomará a furtiva anunciação
dos seus frutos.
Toma-me então como o vento à folha,
o mar à alga, o coração ao fogo.
Escreve o meu nome sob a torrente do primeiro regato
que descer a colina.
Deixa-me, ébrio de lume e água, assim redimido
na solar concha da tua mão esquerda.Hugo Santos
Foto by Maria Pleshkova
Em gestos vejo o teu olhar,nas vontades o sonhar,Pregas teus passosa meus sentimentos,Carregas em ti todos os meus sofrimentos;Vives com esse nó na gargantaque não te deixa dizer!Que não te deixa falar,nos sentimentos tão singelos,que tão facilmente poderias expressar!Tens razão coração mas que hei-de eu fazer ?Quando a boca se cala, o coração se amarranada mais nos resta que esperar!Sonhar que um dia talvez tenhamoscoragem pra enfrentar o que a vida nos tem pra dar!Talvez um dia sonhe acordado e te tenhaSimplesmente aquiunicamente, só a meu lado...Agostinho Oliveira Guto
CitéO último disco do brasileiro Lenine, a rodar com toda a insistência no meu leitor de CDs.Para ouvir e degustar
É um lugar encantadoentre o mundo e a solidãoonde se espreita estrelase a vida cabe nas mãossento-me em frente ao marolho para longe do fimperdem-se barcos na espumanão sei é dentro de mimé uma praia onde a noiteme faz lembrar quem eu sousem ouvir o que me pedemsem importar o que douantes de todas as mágoashavia o mesmo luarsó eu cumpri a promessade cá voltare fico um pouco maisgosto de anoiteça aquisó neste lugar tudo faz sentidomesmo sem ti
Susana felix
Será que ainda me resta tempo contigo
ou já te levam balas de um qualquer inimigo?
Será que soube dar-te tudo o que querias
ou deixei-me morrer lento, no lento morrer dos dias?
Será que fiz tudo o que podia fazer
ou fui mais um cobarde, não quis foi sofrer?
Será que lá longe o céu ainda é azul
ou já o negro cinzento confunde Norte com Sul?
Será que a tua pele ainda é macia
ou é a mão que me treme sem ardor nem magia?
Será que ainda te posso valer
ou já a noite descobre a dor que encobre o prazer?
Será que é de febre este fogo
este grito cruel que da lebre faz lobo?
Será que amanhã ainda existe para ti
ou ao ver-te nos olhos te beijei e morri?
Será que lá fora os carros passam ainda
ou estrelas caíram e qualquer sorte é bem vinda?
Será que a cidade ainda está como dantes
ou cantam fantasmas e bailam gigantes?
Será que o Sol se põe do lado do mar
ou a luz que me agarra é sombra do luar?
Será que as casas cantam e as pedras do chão
ou calou-se a montanha, rendeu-se o vulcão?
Será que sabes que hoje é Domingo
ou os dias não passam, são anjos caindo?
Será que me consegues ouvir
ou é tempo que pedes quando tentas sorrir?
Será que sabes que te trago na voz
que o teu mundo é o meu mundo e foi feito por nós?
Será que te lembras da cor do olhar
quando juntos a noite não quer acabar?
Será que sentes esta mão que te agarra
que te prende com a força do mar contra a barra?
Será que consegues ouvir-me dizer
que te amo tanto quanto noutro dia qualquer?
Eu sei que tu estarás sempre por mim
não há noite sem dia nem dia sem fim.
Eu sei que me queres e me amas também
me desejas agora como nunca ninguém.
Não partas, então?
Não me deixes sozinho…
Vou beijar o teu chão chorar o caminho
Será? Pedro Abrunhosa
Porto - Foz
Foto by Quim Castilho