quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Prece


Foto by Ricardo Machado

Fim


Foto by Pedro Malheiros

Acessos venosos periféricos na intermédia direita e esquerda com dopamina, furosemida e aminofilina em perfusão contínua…
Transfusão de 2 unidades de concentrado eritrocitário em curso…
Sonda nasogástrica e algália…
Linha arterial na radial direita...
Respiração assistida por ventilação não invasiva...
Acorrentado à vida por tanta tecnologia, esperas a morte...desejando-a ardentemente!
Neste fim de dia, o teu corpo já nem te pertence por inteiro. Com os olhos fixos no tecto da enfermaria, tentas dormir, mas não consegues. O ruído dos monitores, a pressão da máscara, a dor e a dignidade que ainda te resta, impedem-te o sono e o descanso.
Tentas cruzar as mãos sobre o peito...é a posição mais digna que te é permitido.
Fechas os olhos para sonhar que anoiteceu, levantas a mão pedindo um sinal que não posso dar. A vida é tortuosa e dura, mas a morte pode ser ainda mais.
Agora já não consegues dormir...só morrer.
Deus há-de aparecer para decidir.

Simetria


Foto by Carlos Matos

Amor



Há amor amigo
Amor rebelde
Amor antigo
Amor da pele
Há amor tão longe
Amor distante
Amor de olhos
Amor de amante
Há amor de inverno
Amor de verão
Amor que rouba
Como um ladrão
Há amor passageiro
Amor não amado
Amor que aparece
Amor descartado
Há amor despido
Amor ausente
Amor de corpo
E sangue, bem quente
Há amor adulto
Amor pensado
Amor sem insulto
Mas nunca, nunca tocado
Há amor secreto
De cheiro intenso
Amor tão próximo
Amor de incenso
Há amor que mata
Amor que mente
Amor que nada, mas nada
Te faz contente, me faz contente
Há amor tão fraco
Amor não assumido
Amor de quarto
Que faz sentido
Há amor eterno
Sem nunca, talvez
Amor tão certo
Que acaba de vez
Há amor de certezas
Que não trará dor
Amor que afinal
É amor,
Sem amor
O amor é tudo,
Tudo isto
E nada disto
Um amor diferente
Sempre, para sempre
Para sempre

Miguel Majer
dedicado a L.

Luz da Noite



Foto by Pintex

terça-feira, 17 de outubro de 2006

Atlântico


Foto by Anticiklone

Estou de vigia, tenho a noite diante de mim...ou o dia. No meio de tanto breu já nem sei se esta escuridão oceânica é noite a clarear ou dia a escurecer. Não sei as horas...nem importa, apenas interessa o Norte e o Sul, o vento e o mar.
O oceano é negro e a noite insondável. O navio estremece com o rugir das ondas e um gemido assustador sobe das àguas, pelo costado até ao silêncio da alma. Há mais de um dia que a tempestade se levantou...e não há previsão de melhorar. Dizem que as ondas tem doze metros, mas não as vejo. Deste sítio onde me sento e agarro, só sinto o navio rebolar como louco. A proa sobe a pico para depois cair no abismo. De vez em quando olho pela amura e parece-me ver o mar já ali à minha frente, em baixo. Portanto presinto que atrás de mim deve ficar o céu e pelo esforço que faço para caminhar no pavimento inclinado da ponte, calculo que a inclinação deve ser monstruosa.
A borrasca diluviana fustiga o navio sem cadência precisa. A violência é certa mas a dircção das rajadas de gotas vem de todos os lados...até de baixo, marchando ao sabor da ventania ciclónica.
Não há conversas nem palavras, apenas o olhar preocupado do comandante...e os sons aterradores da tempestade.
Quando a ondulação se cava, abre-se um buraco até à raiz do oceano, onde parece ver-se o olhar dos náufragos sepultados, e costados de navios afundados.
Sinto-me um estranho, um fantasma no degredo. Já nem sei como se anda em terra firme, o meu andar já é flutuante e a cada passo, aproximo-me do fundo do mar. Sonho em ir a terra saciar o corpo, mas sei que quando chegar hei-de sentir sempre um eterno desencontro, uma sensação estranha de desadaptação, de chegar sempre tarde ou de partir cedo demais.
Deixo o tempo invadir-me a alma e corroê-la...nenhum pensamento me ocorre excepto aquele em que não quero pensar: “somos um palito no meio do infinito, sozinhos, sem salvação possível. As águas devem estar geladas...Deus pode estar morto e o mar pode ser uma goela sem fundo”.
De vez em quando olho-me fixamente no espelho para me certificar que continuo vivo.
Para a semana já é Natal mas a ponte de um navio, à noite na tempestade, é um lugar de paixão absoluta...onde o amanhã não existe.

Dezembro 2001 – 40°22’N 37°16W
Resquícios de uma tempestade a bordo do "NRP António Enes"

Faz agora anos



Faz por esta altura anos, que embarquei...

O Mar e o Rio


Foto by Anticiklone

A chuva caía em lágrimas de cristal...batia nas vidraças, num choro abafado.
À saída de casa, virei à esquerda pela rua que descia até ao rio e procurei, em vão, o cheiro a maresia e a nebelina das ilhas.
Mas a manhã estava encharcada, o rio corria cinzento e nenhum sinal de luz rasgava a intransponível distância deste desencontro. Cheguei à margem, ao cais onde vagueiam almas penadas de solidão, silenciosos pescadores de àguas sujas, cães vadios nos restos da noite, bêbados enrolados em lençóis de anúncios classificados e outras ilusões.
Lembrei-me do que há muito tempo atrás lera de Eugénio de Andrade: “Os navios existem, e existe o teu rosto encostado ao rosto dos navios. Sem nenhum destino flutuam nas cidades, partem no vento e regressam nos rios”.

Adaptado de Miguel Sousa Tavares

Terras de Lava


Foto by Bruno Monix

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

A luz que acende o olhar


Foto by Anticiklone

A luz que acende o olhar
vem das estrelas no meu coração
vem de uma força que me fez assim
vem das palavras, lembranças e flores
regadas em mim.
O tempo pode mudar
a chuva lava o que já passou
resta somente o que eu já vivi
resta somente o que ainda sou.
A luz que acende o olhar
vem pelos cantos da imaginação
vem por caminhos que eu nunca passei
como se a vida soubesse dos sonhos
que nunca sonhei.
Vem do infinito, da estrela cadente,
do espelho da alma, dos filhos da gente,
de algum lugar, só pra iluminar.
A força vem de onde eu venho,

de tudo que acende
A vida calada, olha-me e entende
o que eu sou, tudo que é maior.
Vem do amor
a luz que acende o olhar,
vem dos romances escritos em poesia
vem quando quer...se quiser...se vier.
Vem como um passe de pura magia,
como se eu visse e jurasse que há tanto tempo

que já te conhecia.
A luz que acende o olhar,
vem das histórias que me adormeciam,
vem do que a gente não consegue ver,
vem e acalma, traz-me e leva-me
para perto de ti.


Deborah Blando

sexta-feira, 13 de outubro de 2006



AMAR
É A MELHOR COISA
DO MUNDO

Read my Eyes


Foto by Philippe Balint

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

Força 7

Outono


Praia do Pópulo - S.Miguel
Foto by Joana Silva

Há no firmamento
Um frio lunar.
Um vento nevoento
Vem de ver o mar.
Quase maresia
A hora interroga,
E uma angústia fria
Indistinta voga.
Não sei o que faça,
Não sei o que penso,
O frio não passa
E o tédio é imenso


Fernando Pessoa

Terras de Lava


Lages do Pico
Foto by Ricardo Guerreiro

Baleeiro


Foto by André Weill

O meu avô atravessou todas as ondas
Cruzou as monções e arpoou as baleias
Cantava de noite uma canção mágica
Que chama às redes os bandos de moreias
Contou-me histórias de grutas azuis
Onde as medusas estão de guarda às maresias
E de mulheres como estátuas de sal
Para sempre à sua espera em praias vazias
O meu avô amuou a baleia branca
Por ela se foi perder nos dentes do mar
Mas deixou um mapa no meu travesseiro
Para quando também eu já não quiser voltar
Só eu conheço o rumo do norte
Que atravessa os olhos verdes das sereias
Até às baías de cristais de gelo
Onde em segredo se vão amar as baleias

Clara Pinto Porreia

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Lisboa ComVida


Foto by Rui Santos

A cidade é um chão de palavras


Foto by Mário Sousa

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.
A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.
A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.
A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

José Carlos Ary dos Santos

domingo, 24 de setembro de 2006

À espera...


Foto by Guido Stocco

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

Fico até adormeceres


Foto by Rui Bento Alves

Se quiseres até nem falo
Oiço só o que disseres
Vem deitar-te no meu colo
E diz tudo o que quiseres
Fico até adormeceres
Se quiseres mando calar
O vento que vem do mar
Rasgando a noite crua
Ou então se preferires
Só para te distraíres
Eu faço dançar a Lua
Fico até adormeceres
Fico enquanto tu quiseres
Fecha os olhos se quiseres
Só até adormeceres
Se quiseres eu fico apenas
Até ver se tu serenas
A proteger-te do frio
Fecha os olhos se quiseres

Paulo Gonzo
dedicado a L.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Read My Eyes


Foto by Pedro Gomes

Ilhas de Bruma


Foto by Ruben Heleno

Foto by Eros

Há um tempo em que o tempo pára,
em que o Sol vai fazendo ouro no fim do dia,
em que a areia fica macia como seda,
em que o ar tem outro peso e outra cor.
Há um tempo de ouvir o mar chegando
morrendo devagarinho na praia,
cantando preguiçosamente o princípio da noite
e enchendo de sossego o momento mais doce.
Há um tempo de voltar para terra
de sentir o corpo doendo,
de baixar a prancha e ver o reflexo das ondas navegadas
e as que continuam por navegar.
É esse o tempo mais bonito
é esse o tempo que fica dentro de nós
é o tempo em que o mundo adormece
é o tempo que deveria ficar para sempre.

Foto by R Tavares

Ao cair da tarde
Penso sempre mais
E a luz que me invade
São as cores naturais
Cada figura
que passa por mim
nem me perturba
e eu fico assim
Longe me leva este silêncio
e o sentir que se altera
são as cores do sol
E eu fico encantado
e sinto-me a arder
quando o dia se apaga
fica tanto por ver

Madredeus

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Ao Sabor do Vento...

Ao Sabor da Corrente...


Foto by Andrey

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

Feiticeira


Foto by Elena Vasileva

De que noite demorada
Ou de que breve manhã
Vieste tu, feiticeira
De nuvens deslumbrada
De que sonho feito mar
Ou de que mar não sonhado
Vieste tu, feiticeira
Aninhar-te ao meu lado
De que fogo renascido
Ou de que lume apagado
Vieste tu, feiticeira
Segredar-me ao ouvido
De que fontes de que águas
De que chão de que horizonte
De que neves de que fráguas
De que sedes de que montes
De que norte de que lida
De que deserto de morte
Vieste tu feiticeira
Inundar-me de vida.

Luís Represas
dedicado a L.

Ilhas de Bruma


Salga - Terceira
Foto by Anticiklone

Partida



Ouço daqui o apito do navio.
não sei se chega se parte
mas lembra dor e despedida,
lembra cais e partida,
maré cheia a vazar…
Estranha melancolia me invade
sem que eu saiba se é dor
se é mágoa ou saudade,
se é mentira ou verdade,
se é partir ou chegar.
No meu coração
hoje
há apenas…
um navio a apitar…


adaptado de Gabriela Silva

terça-feira, 12 de setembro de 2006

Despedida


Foto by Spoken

Vi-te
a última vez
na rua vulgar,

e desde então
os nossos passos
não mais passaram no mesmo chão.
Era sol de Agosto bonito,
Daquele que abre risos
e inspira paixões.
Vieste despedir-te
com uma tristeza triste
a rolar do teu rosto até ao meu.
Num momento vi os dias todos daquele mês
que o tempo não há-de apagar.
Quis falar-te tanto
e o que disse não foram as palavras todas:
foi o que não disse.
Mas tu soubeste o que eu queria dizer
que o esquecimento só existe
se não houver lembranças.
De outro modo,
se houver recordações e sonhos
haverá sempre um momento em cada dia
em que se vêem os dias todos.


para L. numa manhã sobressaltada de Domingo...às portas de embarque

Estou Contigo e Não Largo


Foto by Ana Karlikina

dedicado a L.

És Tu


Foto by Alcina Mil Homens

Percorro a ilha como sempre.
Mas agora sinto-me diferente...
È uma sombra surda, que caminha comigo, invisível através dos meus sítios mais secretos da ilha.
Concentro-me para falar com os azuis...mas não estou sozinho. Presinto que alguém me ouve e fico sempre à espera de outra voz surgir.
Deito-me e rebolo no verde mas não estou à vontade...suspeito que alguém me observa por entre as hortências e criptomérias.
Tacteio à procura de um rosto, de uma mão...de uma resposta!
Percebo então que és tu que andas em mim. Não te vejo nem toco mas sinto-te comigo, sempre...o tempo todo.
Partilho contigo os recantos secretos da ilha, a melhor duna para ver a lua e o melhor angulo do sol nascente. O vento da fajã já não sopra só para mim e no meu castelo secreto há agora duas janelas viradas para o mar.
Já não estou sozinho quando tomo banho à noite na praia e os garajaus já não cantam só para mim.
Levo-te à minha cascata escondida, à minha praia deserta, à torre do farol abandonado para vermos os golfinhos passarem. Mostro-te as hortências mais azuis e as azáleas mais cheirosas, a erva mais macia e as sombras mais frescas.
Todos os tesouros e riquezas da ilha deixaram de ser só meus...são também teus.
Não te vejo nem te toco, mas sinto-te por perto...és tu que andas em mim.
dedicado a L.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Read My Eyes


Foto by Rui Martins

Regresso


Foto by Blues

É-me sempre difícil chegar ao Faial.
Aqui nasci e passei a infância, e foi aqui, que muitas vezes, voltei à procura daquilo que sabia ter perdido para sempre.
Quantas vezes me traíu e amou esta ilha? Quantas vezes cheguei...quantas vezes, com amargura parti?
Sento-me onde, dantes me sentava...e descanso. Sinto o mar que me cerca e durmo sem sobressaltos. Fico imóvel e percorro as entranhas da ilha, desço pela sua raiz até encontrar o fogo que persiste vivo para lá do fundo do mar...e o meu pensamento arde.

Dia de Chuva


Foto by Miguel Antunes

Um dia de chuva pode ser tão belo como um dia de sol.
Ambos existem, cada um como é...

Casa


Foto by Mary Johanova

Já não sei onde, nem o que é a minha casa!
Todos me dizem que a nossa casa é o lugar onde vivemos...a própria definição do dicionário diz que casa é o edifício para habitação, morada, mansão, lar ou domicílio.
Mas eu já não sei onde é a minha casa!
Já passei por tantas casas e tantos ambientes que já não sei aonde pertenço...
Sinto-me bem aqui onde cresci, onde aprendi o sentido de família e de amizade...sinto-me protegido...mas falta alguma coisa.
Também me sinto bem no meio da grande cidade, no centro do mundo onde posso ter tudo...mas não me sinto em casa, não me completa.
Já morei num navio, no oceano...e gostei. Tinha um ar solitário e épico e tinha o tempo todo para meditar em esferas superiores. Mas falta-me a ligação inevitável à terra e às pessoas.
De tanto andar, já não sei onde pertenço. Mas apetece-me pousar a mochila, lançar âncora e sentir-me em casa.
Apetece-me encontrar um lugar entre a terra e o mar, onde possa ver o sol e a lua. Um refúgio onde possa voltar sempre todos os dias. Um esconderijo onde te possa amar sem receios. Uma fortaleza que me proteja de todos os índios e temporais...
Uma casa onde em paz, possa fechar os olhos e...dormir.

Cavaleiro Andante


Foto by Carlos Viana

Porque sou o cavaleiro andante
Que mora no teu livro de aventuras
Podes vir chorar no meu peito
As mágoas e as desventuras
Sempre que o vento te ralhe
E a chuva de maio te molhe
Sempre que o teu barco encalhe
E a vida passe e não te olhe
Porque sou o cavaleiro andante
Que o teu velho medo inventou
Podes vir chorar no meu peito
Pois sabes sempre onde estou
Sempre que a rádio diga
Que a américa roubou a lua
Ou que um louco te persiga
E te chame nomes na rua
Porque sou o que chega e conta
Mentiras que te fazem feliz
E tu vibras com histórias
De viagens que eu nunca fiz
Podes vir chorar no meu peito
Longe de tudo o que é mau
Que eu vou estar sempre ao teu lado
No meu cavalo de pau

Carlos Tê/Rui Veloso

Ilhas de Bruma


Ribeirinha - Faial
Foto by Anticiklone

S. Miguel


Ponta Delgada - S. Miguel
Foto by Mariana

A oeste de finisterra ficam as ilhas perdidas
Disse-me um corso galego que um dia as viu e perdeu
As velhas cartografias também o dizem assim
Como ter fortuna de as achar no mar oceano sem fim ?
Vinha um dia das canárias ao largo com vento a favor
Seguimos o vôo das aves que tomamos por açores
Até que ouvi do mastaréu a voz rouca do gajeiro
Terra à vista lá ao longe no meio do nevoeiro
Ó que ilha tão formosa
Pisei ao sair do batel
Dei-lhe então nome de santo
Em dia de são miguel

Rui Veloso/Carlos Tê

Mesa


Peter Café Sport - Foto by Anticiklone

Há uma mesa à qual regresso sempre que aqui venho.
Não pelo seu conforto que a madeira é grossa e o tampo de mármore frio.
Não é pelo local, que esse é escuro e até suturno.
Não é pelo ambiente que esse é abafado e carregado de fumo.
É porque ela representa parte do meu passado, passado aqui sentado a olhar para a porta…para o mundo lá fora.
É porque nesta mesa, o fumo desenha histórias que me fizeram feliz e a música aquece sempre o coração
Desta mesa vejo o tempo passar, vejo gente do mundo todo, o céu e o mar lá fora…e cá dentro vejo a minha vida toda.
É porque nela o café aquece mais a alma e o gin tem mais sabor a mar.
É pela familiaridade da mesa, em tantas conversas que os amigos vão trazendo à medida que se vão sentando comigo.
É pela sensação de paz que sinto sempre aqui me sento…longe do mundo.
É porque esta mesa não é uma simples mesa…é uma ligação com o passado e com a ilha.

domingo, 10 de setembro de 2006

Mágoa de Nada


Forto by Anticiklone

Paira à tona de água
Uma vibração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração.
Não é porque a brisa
Ou o quer que seja
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,
Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer.
Minha alma é indistinta
Não sabe o que quer.
É uma dor serena,
Sofre porque vê.
Tenho tanta pena,
Soubesse eu de quê


Fernando Pessoa

sábado, 9 de setembro de 2006

Rosa Azul



Às vezes
apenas uma gota de água
sobre as rosas faz o perfume.
Não perguntes porquê
pois as rosas não hão-de responder-te.
Observa. Depois
respira o aroma do azul

Ivo Machado

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

Terras de Lava


Pôr do Sol nas Cinco Ribeiras - Terceira

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

Estou de Volta


Estou de volta...
Depois de um mês nas ilhas, depois de voltar ao azul e ao verde...
Depois de regressar a casa...às raízes...
Depois de voltar a sentir o oceano, o cheiro de maresia e o canto das gaivotas...
Depois de ver a lua subir por trás do Pico e o sol por-se em S. Jorge...
Depois do fim de tarde em Porto-Pim, do passeio de bicicleta pela avenida, do lanche na esplanada do Centro Cultural e do jantar na varanda, de frente para o canal...
Depois da marina, do "Peter" e das noites da "Central"...
Depois do azul das hortências, da frescura das criptomérias...
Depois de ter voltado ao início, ao centro do meu mundo...
Estou de volta

I´m Back

terça-feira, 15 de agosto de 2006

O Meu Amor Existe


Foto by Woman Studio

O meu amor tem lábios de silêncio
E mão de bailarina
E voa como o vento
E abraça-me onde a solidão termina
O meu amor tem trinta mil cavalos
A galopar no peito
E um sorriso só dela
Que nasce quando a seu lado eu me deito
O meu amor ensinou-me a chegar
Sedento de ternura
Separou as minhas feridas
E pôs-me a salvo para além da loucura
O meu amor ensinou-me a partir
Nalguma noite triste
Mas antes, ensinou-me
A não esquecer que o meu amor existe

Jorge Palma

Like Twins



Foto by Oleg Seleznev

Autor desconhecido

Os dias são à noite
E as noites são de dia

Se acordo
Contigo
A mim abraçado
O sono perdido
Não deixa cuidado
Os dias são à noite
E as noites são de dia
Se acordoContigo
Se estou a teu lado
É doce o caminho
Deste meu fado
Os dias são à noite
E as noites são de dia

Pedro Ayres de Magalhães
dedicado a L.

quarta-feira, 26 de julho de 2006

Azul e Verde



Foto by Rui Bonito

Açores


Furnas - S. Miguel

As furnas são nossas.
As pipas do vinho são nossas,
As carroças do peixinho nossas,
O leite das tetas que ordenhamos,
As pontas com poucos faróis,
Os caminhos seculares mal calçados.
Os chafarizes com um tapete de bosta quente cheiram bem.
Vamos revoltar as ilhas: eu tenho lá ossos de pai e mãe
Sujo seria se não acudisse ao chamamento

Vitorino Nemésio

Ilhas de Bruma


Fajã de Sto Cristo - S. Jorge